Me contaram de uma prostituta de nome Brasil. Se não é invenção, acho que a história, no mínimo, foi aumentada com o passar de boca em boca. Quem conta um conto aumenta um ponto, dizia minha avó.
Disseram que essa "senhora" tinha vários cafetões. Difícil de ser verdade, a não ser que fosse um de cada vez, mas não foi assim que me contaram, então vamos lá.
Um cafetão era político, só queria saber de tirar-lhe o máximo de dinheiro possível. Viajava, ia aos melhores restaurantes, pagava suas despesas, mas nunca lhe dava nada de bom em troca. Mas ela sabia que era amada por ele, pois ele sempre lhe fazia amor com muito fervor, e depois lhe tirava dinheiro. E também lhe batia quando ela merecia. Ah, e fazia-lhe discursos tão empolgantes sobre como o futuro seria bom, como ele resolveria todos seus problemas após a próxima eleição! E quando ele viajava, então!, ela soube que ele sempre falava muito bem dela, de como a amava, de como jamais a deixaria. Como ela poderia deixar de dar-lhe seu dinheiro? E seu voto também.
Outro cafetão era empresário. Não era exatamente um cafetão pois na realidade usufruía e não pagava, mas veja se não é o mesmo que ser um cafetão. Ele sempre dava um jeito de escapar sem pagar, mas voltava sempre com promessas de que pagaria todos os atrasados e então propunha parcelar os débitos. Ele dizia que tinha que dividir em muitas parcelas porque a vida estava difícil e a empresa não dava lucro e talvez ele até tivesse que demitir alguns funcionários para poder pagar os atrasados e etc. Ela fica com pena dos que poderiam perder o emprego, das crianças que ficariam sem leite, e acabava aceitando o parcelamento. Ele então pagava a primeira parcela, usufruía novamente de seu crédito renovado e desaparecia sem pagar o resto. Depois começava tudo de novo. Mas como ela poderia negar-lhe a volta se ele era tão importante? Afinal ele era empresário, gerava empregos. Brasil dependia dele.
Um terceiro cafetão era um sem-terra. Assim como o empresário, não lhe tirava dinheiro diretamente, mas é como se fosse. Ele sempre chegava esfarrapado e sujo em sua casa, que ela tinha suado muito para ter. Não era pequena nem suja como você pode estar imaginando, mas grande, confortável e bem equipada, que ela era uma dama em pleno desenvolvimento. Ele ia entrando sem pedir licença, na maior sem-cerimônia. Abria a geladeira, comia, tomava cerveja, deitava no sofá, assistia sua televisão que era grande e moderna. Muitas vezes trazia companheiros. Quando ela chegava, já exausta, ele sempre lhe explicava que a propriedade privada era uma aberração inventada pelos capitalistas, que a justiça só poderia ser feita quando a propriedade fosse coletiva e tudo fosse de todos. Veja como tudo é melhor em Cuba, veja como o povo era feliz na União Soviética antes ser destruída pelo capitalismo. Ela não via, mas acreditava nele. Ele era tão sincero em suas palavras e na sua sede por igualdade para todos os excluídos que ela sempre fazia contribuições para o movimento. E quando ele e sua turma iam embora sua casa estava uma bagunça, mas antes de ir ele lhe plantava a mandioca e ela gostava porque era com amor. Por essas e outras também foi considerado um cafetão.
Tinha o Empreiterio. Construiu sua casa do jeitinho que ela quis, mas ficou super caro. Apresentou um orçamento inicial bastante razoável e bem mais baixo que outros construtores, mas mal começou a obra e já disse que precisava rever os valores unitários, porque o salário dos pedreiros ia subir e o cimento havia subido, e também o ferro. E assim foi o tempo todo, sempre precisando de mais e mais dinheiro para concluir a obra. Mas finalmente um dia sua casa ficou pronta. Com atraso, mas ficou. Do jeitinho que ela quis. E ela pode se livrar do Empreiteiro que por dois anos lhe sugou muito dinheiro. Foi uma alegria só. Fez festa, convidou as companheiras e os amigos. Ainda bem que ela teve o Estrangeiro para conseguir o dinheiro ao longo da obra, por que se não teria demorado ainda mais para terminar.
O Estrangeiro. Ele era assim conhecido porque, bem, simplesmente porque ele era estrangeiro, ora. Ele era da Eslováquia, onde quer que isso fosse, porque ela não sabia. Ele vivia de emprestar dinheiro a juros para ela e outras prostitutas - é ou não é uma forma de cafetinagem? Foi muito importante em sua vida pois emprestou-lhe quando ela não tinha crédito na praça. Começou comprando um apartamentinho no centro, depois um carro, depois construiu a casa e comprou um carro melhor. Fez também algumas viagens. O apartamentinho não vendeu e continua usando para seus programas. Pagou caro por tudo isso, e ainda paga, pois os juros do Estrangeiro não são pequenos, não, mas não teve outra opção. Sempre que ela mais precisou, os juros estavam em alta. Havia sempre uma crise internacional, sei lá, e o risco de inadimplência dela subia nessas ocasiões. Ela não entendia, porque de um jeito ou de outro ela sempre pagava, mas funcionava assim, dizia o Estrangeiro. Por outro lado ele sempre foi muito simpático, sempre com um sorriso nos lábios quando ela concordava com os termos do empréstimo, mas se ela não pagasse ele vinha buscar e era melhor ela ter como pagar porque se não... Mas ela gostava dele.
Por fim, tinha o Advogado. Sempre acabava precisando de seus serviços, ou para livrá-la da cadeia quando era pega em uma blitz, ou algum de seus clientes a metia em encrenca, ou no caso de algum acidente de transito, ou problemas com a Receita Federal, e nas questões de documentação de suas propriedades, cobranças indevidas e tantas coisas mais que ela não sabia resolver sozinha. Ele cobrava caro por seus serviços, mais do que ela, por hora de trabalho, mas ela achava justo, afinal ele havia estudado tanto e sua vida era dura e a dela, "fácil", como diziam. Mas vez ou outra ele também vinha para extravasar seus desejos, que ninguém era de ferro. E não pagava um centavo por isso, afinal, dizia ele, ela estaria sempre encrencada se não fosse por ele.
Mas acontece que a dama era muito formosa, com lindas costas banhadas pelo sol do novo mundo, no alto uma cabeleira vasta como floresta tropical, em seus seios mais amores, uma região central muito "quente" e, mais ao sul, um canyon cercado de linda mata que ainda parecia intocada, mas que na verdade há muito tempo fazia a alegria daqueles que a exploravam.
E então, quando risonha, límpida e garrida, deitada em berço esplêndido, apaixonava a todos os que tinham o prazer de conhecer as suas belezas e encantamentos. E jamais queriam deixá-la, e por ela sofriam e viviam, e seu bem almejavam, e queriam que ela se livrasse de seus cafetões para finalmente ter paz no futuro e viver da glória do passado.
E estes eram trabalhadores, comerciantes e comerciários, empresários, turistas, bancários, estudantes, advogados, médicos, juízes e todo tipo de profissionais, e até uns poucos políticos! Estes a amavam de verdade, eram quem a sustentava e quem fazia sua verdadeira riqueza.
Mas estes ela desprezava, não lhes retribuía, apenas os tolerava porque através deles podia sustentar seus verdadeiros amores - seus cafetões...