sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Feedback não pode


Só agora me dei conta da notícia veiculada ontem de que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou por unanimidade o projeto de lei do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) que proíbe estrangeirismos no país.


É claro que ainda falta a aprovação em votação no plenário e depois seguir para o Senado, mas estamos a um passo de soltar as amarras que têm segurado o Brasil de caminhar a passos largos rumo ao desenvolvimento.


Relembrando, tudo começou na alvorada do século XVI quando os brasileiros receberam forte influência de uma língua estrangeira trazida por uns sujeitos esquisitos de pele esbranquiçada, roupas e comportamentos estranhos, que saíam de barcos enormes. Em pouco tempo essa atração inata dos brasileiros pelo estrangeirismo resultou que nosso vocabulário original estivesse tão impregnado de palavras estrangeiras que se resolveu adotar a língua portuguesa como oficial.


Depois veio a época em que era chique usar palavras francesas para mostrar sofisticação e assim foi incorporada mais uma leva enorme de palavras estrangeiras nesta nossa língua tropical, que já se distanciava do português original. A influência francesa passou mas as palavras ficaram: chique, madame, garagem, garçom, antiquário, boate, toilete, bijuteria, restaurante, entre muitas outras.


Enfim chegamos a épocas mais recentes onde recebemos forte influência da língua inglesa, essa língua que, teimosa, insiste em ser usada internacionalmente para comércio, negócios e turismo. Mas antes que palavras dessa língua infame se instalem definitivamente em nosso majestoso, porém já desvirginado, português, nosso atento e perspicaz deputado Aldo Rebelo deu-se conta que esse desatre natural poderia ser evitado e decidiu, muito sabiamente, propor uma lei que evite tal ignóbil assalto.


Tenho certeza que, aprovada, sancionada e publicada, a Lei Aldo Rebelo (acho justo que tão importante lei carregue o nome de seu criador) vai dar um impulso de crescimento ao país, empurrando a taxa de crescimento do PIB, que deve ficar em torno de 4,7% em 2007, para pelo menos 8% em 2008, quem sabe até mais. Talvez passemos a Argentina e o Chile, ou até cheguemos perto da China.


Imagine quantos novos empregos serão gerados para alterar todos os rótulos de embalagens, cartazes, anúncios, folhetos, livros, revistas e jornais que contenham estrangeirismos. E o número de novos advogados que serão contratados para alterar nomes de empresas que contenham estrangeirismos? Mil vivas aos tradutores, estes trabalhadores tão mal remunerados.


A esta altura os pessimistas já devem estar pensando que nosso vocabulário vai virar uma bagunça mas não é bem assim, na elaboração da lei foi tomado o cuidado de manter as palavras já incorparadas ao vocabulário nacional. Madame vai continuar sendo madame e não vai ser rebaixada de uma hora para outra para uma simples dona-de-casa.


Agora muita coisa vai ficar clara para os brasileiros. As empresas estrangeiras, essas multinacionais torpes, vão ter que dizer a que vieram. A Telefonica vai ter que se dobrar ao poder da língua portuguesa e passar a usar o acento circunflexo, passando a chamar-se Telefônica. Agora sim, dá para saber do que se trata. General Motors vai ser Motores Gerais, Volksvagen vai ser Carro do Povo. Ah, e vai ter que trocar o nome dos carros também. Fiesta vai ser Festa, Idea Adventure vai ser Idéia Aventura, Honda Civic vai ser Honda Cívico, Focus Hacth passa a ser Foco Alçapão. E você vai ter que trocar a plaquinha colada na traseira do seu carro, ou vai querer andar por aí carregando um estrangeirismo ilegal bem à vista?


Uma dúvida: tupi-guaraní é estrangeirismo? Itaú não está no Aurélio, então deve ser estrangeirismo. O terceiro maior banco do país tem que mudar o nome para Pedra Preta. Agora fiquei confuso, será que tupi-guaraní é realmente estrangeirismo? Ou será que o português é que é? Acho que vou mandar um e-mail, digo um correio eletrônico, ao mestre Rebelo para saber o que diz a lei.
Ih, vai ficar mais difícil usar o computador. Já não posso usar o mouse, tenho que usar o rato. Além de tudo meu rato é cinza, que asco! Quem sabe encontro nas lojas de informática um camundongo. Se for um camundongo branco, talvez dê para se acostumar.


Alguém aí sabe a tradução de blog? Me dê um feedback, quero dizer, retro-alimentação.

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