terça-feira, 9 de novembro de 2010

Enem é extraordinariamente bem sucedido

Essa é a afirmação de Lula hoje.

Considerando que a prova de 2009 teve que ser cancelada e refeita, complicando a vida dos estudantes e das universidades que pretendiam usar o resultado do Enem na classificação dos candidatos, e levando em conta ainda que a prova deste ano encontra-se suspensa pela Justiça Federal devido à quantidade de problemas apresentados, é no mínimo curioso como são baixas as expectativas do presidente quanto a um sucesso.

Sem dúvida neste caso ele deve estar usando a mesma medida que usa na sua auto-avaliação.

E se tudo desse certo, como seria? Um extraordinário, incrível, absoluto e incontestável sucesso?

Mas como sempre, a culpa dos problemas provavelmente é da oposição, já que declarou que "até hoje tem gente que não se conforma com o Enem".

É dura a vida de minoria (veja post abaixo) neste país!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Minoria

Decididamente fazer parte de um grupo de apenas 3% de brasileiros faz de mim minoria (veja post abaixo). Muito mais minoria que qualquer outra minoria nacional.

Quais são mesmo as vantagens que as minorias hoje tem? Preciso pesquisar. Cota em Universidades? Preferência em concursos públicos? Bolsa-minoria? Crédito habitacional subsidiado?

Hum, mas acho que primeiro precisa ser oficialmente reconhecida como minoria. Como a gente faz isso? Preciso pesquisar também. Acho que é o governo que define. Ih, mas isso pode ser um problema.

Será que o governo do PT vai reconhecer uma minoria que é desfavorável ao Messias? Mais fácil entrar na lista das trezentas e tantas diretrizes do PT como um alvo para eliminação, assim como a liberdade de imprensa, a ética, o respeito ao pensamento distonante.

Sei não, talvez seja melhor deixar pra lá, pode não valer a pena. Alto risco para pouco ganho. Além disso ia ter que encontrar ao menos uma parte desses 3% para formar uma associação.

Melhor continuar parte de uma minoria anônima e quase solitária. As minorias conhecidas são sempre vítimas de preconceito, têm extrema dificuldade de sair do armário e revelar suas reais convicções, de serem aceitas na sociedade, de não se sentirem uma aberração, de expressarem suas opiniões. Uau! Pensando bem, não é que sou mesmo parte de uma minoria?

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Os heróicos 3%

Transcrevo abaixo post de João Pereira Coutinho na Folha Online em 1/11/2010. Faço minhas as suas palavras.


Passei meus últimos dias com a cabeça mergulhada no Brasil. As eleições, sim, as eleições: na TV ou nos jornais portugueses, a minha tarefa era explicar aos patrícios o que sucedia desse lado do Atlântico. Li muito. Escutei bastante. Perguntei idem.
Mas de tudo que li, escutei ou aprendi, nada me perturbou tanto como saber que Lula deixa o Palácio do Planalto com 82% de aprovação popular.
Minto: o que me impressiona não são os 82%; o que me impressiona são os 3% de brasileiros que desaprovam o governo Lula e que não embarcam no entusiasmo geral. Como são solitários esses 3%! E como são heroicos! É preciso coragem, e uma dose invulgar de realismo e sensatez, para não ser atropelado pela multidão desgovernada. Quem serão esses 3%? Gostaria de os conhecer, de os convidar para minha casa, de beber com eles à liberdade e à democracia. Vou repetir, quase com lágrimas nos olhos: 3%!
Não nego: Lula teve méritos econômicos evidentes. Arrancar 20 milhões da pobreza não é tarefa insignificante; e ter um país com crescimentos anuais de 6% ou 7%, enfim, uma miragem para quem vive na Europa. Se o Banco Mundial acredita que o Brasil será a 5ª economia do mundo no espaço de uma geração (obrigado, "The Economist"), Lula teve um papel nesse caminho. Mesmo que o caminho tenha sido preparado por Fernando Henrique Cardoso.
Mas quando penso nos solitários 3% que desaprovam Lula; quando penso nessa gente residual, marginal, divinal, penso em todos os casos de corrupção que abalaram os governos petistas e que seriam intoleráveis em qualquer país civilizado do mundo. Penso nos ataques e nos insultos que Lula desferiu contra a imprensa mais crítica. Penso na forma como Lula usou o seu cargo para, violando todas as leis eleitorais (e do mero decoro democrático), eleger Dilma Rousseff. E penso, claro, na política externa de Lula.
Sou um realista. Países democráticos não lidam apenas com democracias; por vezes, nossos interesses estratégicos ou econômicos exigem que sujemos as mãos com autocracias, teocracias, ditaduras e aberrações políticas. Mas devemos fazer isso com decoro; envergonhados; como um cavalheiro que frequenta o bordel e não faz publicidade de seus atos.
Os 3% que desaprovam Lula, aposto, desaprovam a forma indigna como ele elegeu Ahmadinejad seu amigo; como manteve relações amistosas com Chávez; como foi displicente perante os presos políticos cubanos.
Acompanhei as eleições brasileiras. Comentei-as. Escrevi a respeito. Mas, nessa hora em que Lula sai para Dilma entrar, os meus únicos pensamentos estão com os 3% que não perderam a cabeça e mantiveram-se à tona da sanidade.
Nessa noite fria de Lisboa, um brinde a eles!